“Então, bora fazer um triatlo?”

Essa veio do Alexandre, um amigo brasileiro que conheci quando voltei a estudar aqui no Canadá, e que acabou virando nosso vizinho quando nos mudamos pro subúrbio. Ele foi esperto e deu uma adoçada no convite: o triatlo era em Muskoka, a belíssima (e famosa) região dos lagos do norte de Ontário onde todo mundo vai passear no verão. E a prova é bem em frente à vila do Papai Noel que tem por lá, e que as crianças adoram. Era um passeio perfeito de final de semana, mesmo se eu não decidisse competir.

Felizmente, eu estou em forma - tanto cardiovascular quanto também forma de batata, já que ainda tenho uns 10 quilos pra perder. Então a ideia não era de todo maluca. E o triatlo tinha uma versão júnior, com o apropriado nome de “give it a tri”: 400m de natação, 10km de bike e 2,5km de corrida. Achei bem possível, então acabei topando.


Aqui no norte temos um impeditivo leve para esportes ao ar livre. Ele se chama inverno brutal. O convite do triatlo veio na época do natal e, dos seis meses até o triatlo, uns quatro ainda teriam temperaturas abaixo de zero. A natação dá pra treinar na piscina coberta da academia, e tenho até uma esteira em casa pra treinar a corrida. Só faltava a bicicleta.

O Alexandre não é bobo e já tinha resolvido essa. Descobri no dia que, no meio do inverno, ele compartilhou no aplicativo da academia uma pedalada de 20km. Mas o mapa parecia de videogame.

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“Safado, ele comprou um treinador com Zwift”, pensei.

Eu saquei o que era porque, com a história do triatlo, eu já vinha pesquisando um bocado sobre ciclismo e formas de treinamento. Se tem uma coisa que eu aprendi que ciclista gosta tanto quanto pedalar, é gastar dinheiro em equipamento pra pedalar. E tem uns que são meio que padrão de mercado. O “câmbio Shimano” do treinamento indoors, por exemplo, é um aplicativo chamado Zwift, conectado a um treinador de bicicleta. O conceito é super legal: você pega sua bike, instala o treinador no lugar da roda traseira, e suas pedaladas reais refletem no seu personagem virtual do aplicativo. O Zwift é essencialmente uma rede social/mundo virtual com trilhas de bicicleta. Tem corridas, treinos, pedaladas em grupo, um monte de coisa. E o feedback do treinador é bi-direcional: se no jogo você pega uma subida, o pedal fica mais pesado na sua bike da vida real.

A foto abaixo é o meu treinador, onde o sofrim… digo, progresso acontece. É onde a minha antiga bicicleta vai passar a merecida aposentadoria.

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O leitor atento provavelmente reparou que eu disse “antiga” bicicleta - e também se lembra da história de gastar dinheiro. Mas a culpa disso é da Jáque. Você provavelmente a conhece: tu vai e faz um plano pra treinar pro triatlo e pensa “pois é, vou precisar treinar em casa durante o inverno, e já que vou precisar do treinador, eu podia também dar um upgrade na bike…”. E calhou de eu achar o treinador em oferta justamente na loja de bicicletas mais próxima daqui de casa, que coincidentemente tinha uma bike nova com o quadro exatamente do meu tamanho…

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Honestamente, eu devia é ter feito esse upgrade antes. A diferença entre a bicicleta de supermercado e a bicicleta “agora a coisa é séria” é absurda. Ela é mais leve, mais estável, e muito mais confortável. E a minha está bem longe do topo de linha.


Além de gostar de movimentar a economia, tem outras coisas que a turma do ciclismo gosta bastante. A principal delas é sofrer, dada a quantidade de fotos que o povo posta no Reddit de pedaladas de seis horas seguidas, de circuitos com subida acumulada de 8,8 quilômetros (o famoso everesting) e o escambau.

Outra coisa favorita do ciclista são dados. A bicicleta moderna é um monte de sensores ambulantes: no guidão tem um computador de bordo que, além de GPS, é conectado ao medidor de potência que fica nos pedais, ao medidor de batimentos cardíacos que eu uso ao redor do peito, e até na luzinha vermelha que fica debaixo do selim, porque ela é também um radar que avisa quando tem carro se aproximando. E todos esses dados sobrem pra nuvem depois de uma pedalada, onde você pode rever os dados de cada momento do percurso em gráficos como esse aí embaixo. Esse exemplo é de um trecho onde eu ataquei a ladeira aqui perto de casa no maior gás, fui recebido com vento contra de 23 km/h, e morri logo no primeiro minuto de subida…

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No início eu achava que ciclismo era tempo e velocidade, mas hoje entendo que é um esporte de eficiência energética. Tudo gira ao redor da capacidade do seu corpo enviar energia aos pedais. No Zwift, por exemplo, o principal indicador não é sua velocidade: é a potência, em Watts, que você tá colocando nos pedais. A medida de progresso do ciclista é o seu FTP (functional threshold power, algo como “potência limite funcional”) - é uma medida da potência máxima que você consegue gerar por uma hora sem sobrecarregar os músculos com ácido lático e a fadiga que o acompanha. Tudo isso tá lá na nuvem e eu acompanho de perto.


Da bike eu só não tenho gráfico pra uma coisa: os efeitos na saúde mental. Mas nesse aspecto eu garanto que os números são bons.

O motivo que me faz persistir pedalando frequentemente, mesmo quando falta a vontade, é o fato irrefutável de que é impossível ser infeliz em cima da bicicleta. Não somente pela dopamina do exercício, mas por uma espécie de redução da realidade. Não tem nada que você possa fazer com os problemas de casa ou do trabalho quando você está sozinho, a 50 km de casa, numa estrada deserta do norte da cidade, onde o último carro que você viu foi a 20 minutos atrás, e onde a única coisa que vai te fazer voltar pra casa é a força das suas próprias pernas. Você precisa prestar atenção na marcha, na pista, na rota. Não sobra espaço mental pra preocupação ou incerteza. O seu mundo passa a ser o vento no rosto, o zumbido dos pneus no asfalto, o esforço na perna esquerda, depois na direita, depois na esquerda de novo. É o melhor tipo de meditação.

Um efeito colateral disso é o fato curioso de que até um dia de pedal ruim acaba sendo bom. Alguns exemplos:

  • No começo da primavera eu fui dar uma volta na hora do almoço. Eu ia só uns 20km até uma das estações da minha linha do trem e pegar o trem de volta. Tava frio tipo uns cinco graus, e tinha previsão de chuva, mas era pra dali a umas 3 horas, então eu achei que ia ser tranquilo. Naturalmente, a chuva chegou antes e, faltando um quilômetro pra estação eu dou de cara com a passarela do Rouge River - o único acesso pra estação a partir de onde eu estava - fechada para reforma. Cheguei em casa atrasado, gelado e molhado - mas não infeliz.

  • Sábado cedo eu saí pra dar uma volta de 50km numa trilha nova da cidade vizinha. Nem bem tinha andado cinco quilômetros, minha corrente agarrou no meio duma curva, me estabaquei no chão e me ralei todo. Mas, surpreendendo até a mim mesmo, minha reação foi puramente mecânica. Algo tipo: “Tá, não quebrei nada. A mão tá ralada mas dá pra segurar o guidão. O arranhão do braço tá feio, o da perna tá mais feio ainda, mas não tá pingando sangue, então tá de boas, não vou precisar desistir”, e subi na bicicleta de novo e prossegui, sem um pingo de autocomiseração. O Tom, tadinho, levou um susto enorme quando me viu chegar em casa machucado e sangrando…


Eu não sei direito como isso aconteceu, mas numa conversa sobre a (estúpida) guerra do Irã e preços de combustíveis, Bethania chegou à conclusão de que deveríamos comprar uma bicicleta elétrica pra levar o Tom na escola.

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Eu me lembro do dia que entregaram a bicicleta e, na caixa, além da marca e do “este lado para cima”, estava escrito: “você vai se divertir muito” - o que todo dia se prova uma verdade. Eu boto o Tom na garupa e cada dia inventamos uma aventura diferente: ver os anões de jardim dos vizinhos, passar no drive through de bicicleta (a turma do restaurante sempre dá risada), ou ir visitar o book nook - a banquinha de livros que um dos vizinhos botou na porta de casa, livre pra quem quiser pegar um ou doar outro. E com o motor elétrico, o cansaço não importa - eu posso ter pedalado 83 km de manhã e, de tarde, a gente pode dar um passeio numa boa.

Os 83 km do item acima não são figurativos. Mas essa história começa ano passado…


Em outubro de 2025, Bethania me deu um envelope de presente de aniversário e, dentro dele, havia a inscrição pra uma prova chamada Bike for Brain Health (“pedal pra saúde cerebral”). É uma pedalada beneficente: a inscrição é feita na forma de uma doação pra um hospital que faz pesquisas sobre tratamentos para demência. A prova é num domingo de manhã, onde eles fecham a principal rodovia que dá acesso a Toronto, só pra bikes. Quando o Alexandre veio com a história do triatlo, eu revidei com a pedalada, e no fim lá estávamos nós dois saindo de casa às cinco da manhã de domingo pra poder participar.

Normalmente eu sou um ciclista orgulhosamente solitário; pra mim, pedal é tempo exclusivamente meu. Eu defino a minha rota, eu boto a música que quero nos fones, eu saio com a minha camiseta surrada dos Beastie Boys descombinando de todo o resto da roupa, e se eu quiser fingir que sou sprinter e lascar 50km/h no retão do lago, ou fazer um treino fofo zona 2, a escolha é minha. Aí eu e o Alexandre chegamos na prova e já no estacionamento tava cheio de “amadores profissionais”, com short de mil reais, bicicleta de dez mil, óculos Oakley policrômico, e eu com meu short do AliExpress e meu óculos comprados na loja de material de construção (verdade). Eu nunca havia pedalado em grupo, e ia inaugurar essa nova etapa no meio de muita gente, umas duzentas pessoas fácil, antes das seis da manhã, e previsão de umas dez mil no total. Seria eu um peixe fora d’água em regime de cardume forçado?

O nervoso passou nos primeiros cinquenta metros, porque - lembra? - é impossível ser infeliz em cima da bicicleta. O vento bateu no rosto, ouvi o zumbido dos pneus, e tudo imediatamente estava bem. E então tudo estava muito bem, porque uma das coisas que a depressão rouba da gente é a vontade de fazer as coisas, e essa pedalada era uma das coisas que há muito tempo eu, de fato, queria fazer, e que me preparei por meses pra fazer. E então chegou a hora, e meus pneus zunindo na ladeira do acesso à rodovia que fica o ano inteiro reservada pros carros, exceto naquela única manhã, e eu estava lá, pra completar em grande estilo o que seria a minha pedalada mais longa até então.

A nossa meta era fazer o percurso de 60 km. A primeira metade é basicamente morro abaixo até o centro de Toronto, com a vista panorâmica da cidade lentamente se revelando com o nascer do sol, conforme você se aproxima dos arranha-céus.

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O Alexandre está em melhor forma do que eu, mas nossa potência funcional (o FTP) é mais ou menos a mesma então eu consigo acompanhar, com algum esforço. E a gente combinou de ir numa boa e fazer paradas nos pontos de apoio pra tomar uma água e botar uns carboidratos pra dentro. Uma delas foi bem em frente ao Skydome - fiz questão de ligar pra casa, pra poder mostrar pro Tom onde eu estava. É que o filme “Red: Crescer é uma Fera” se passa aqui em Toronto, e tem uma cena onde um panda gigante invade o Skydome. Toda vez que eu passo em frente ao estádio eu tiro uma foto pra ele e falo: “Nem sinal dos pandas, Tom! Tá tudo bem!”.

Os 30 kms restantes são, basicamente, morro acima, o que me preocupava. Um dos riscos em pedaladas longas é quando a pessoa não se alimenta direito, então chega uma hora que a pilha acaba e você perde todas as forças (o chamado bonking). Disso eu não tinha medo, pois estava ingerindo 45 gramas de carboidrato por hora, exatamente conforme recomendação do Dr. Google. Mas o que não me saía da cabeça foi o final da minha pedalada do ano passado, da porta de casa até Toronto, que foi mais curta que essa, e que terminou com minhas pernas em chamas; eu definitivamente não conseguiria continuar.

Aí a câmera corta para um breve flashback de antes da corrida, eu e o Alexandre no carro a caminho do evento. Eu perguntei se ele queria fazer os 60 km no gás total ou pegando leve, e ele acabou revelando o seu único ponto fraco: ele não consegue beber água com a bicicleta em movimento, o que iria requerer paradinhas adicionais no percurso. Aceitei na hora, porque amigo é pra essas coisas, especialmente quando o amigo está mais gordo e em pior forma física. Na minha cabeça eu fico pensando que foi isso que me salvou, e estrategicamente me esqueço das centenas de quilômetros de treino, da bicicleta nova e meticulosamente preparada, das pedaladas cumpridas mesmo cansado, mesmo no frio, das madrugadas onde eu decidi abandonar a insônia às quatro da manhã e ir pro Zwift treinar…

Numa dessas paradinhas extras, aproveitamos pra contactar as esposas, que deveriam estar na chegada esperando por nós. Mas elas estavam é presas no trânsito; um caminhão de lixo capotou na estrada e avacalhou o tráfego. Eu e o Alexandre sabíamos exatamente o que fazer: tomamos a decisão natural de estender a pedalada uns 20 kms extras pra dar tempo delas chegarem. Acontece que, do jeito que a estrada estava fechada, só tinha um jeito de fazer 20 kms a mais: repetir a subida mais íngreme do percurso. Lembra que eu falei que ciclista gosta de sofrer, né? Eu definitivamente não sou um climber - o ciclista especializado em subir montanha - então eu já sabia que ia doer.

Eu tenho assistido muitos vídeos de esportes de resistência no YouTube, especialmente quando treino em casa. Quando você está morrendo lá pelo quilômetro dezoito, é consolador ver o atleta do vídeo sofrendo também - mesmo que no caso dele, ele esteja no décimo-oitavo dia de uma pedalada de 4.400 km que atravessa os EUA, da fronteira do Canadá até o México. E foi vendo um desses vídeos que eu reparei que ninguém nunca reclamava de nada. Nunca ouvi um “tá foda”, ou “isso é horrível” - a atitude deles era sempre tendendo para o positivo: “só mais 25 quilômetros de subida!”, “finalmente vou tomar banho depois de três dias!”, coisas assim. Preparo físico não vai longe sem o preparo mental, e o preparo mental não é ser durão, e sim manter a positividade mesmo quando tudo vai mal. Aí a dor fica temporária e o difícil vira oportunidade.

Na última perna da minha subida eu estava, de fato, nas últimas forças das minhas pernas - mas o mental ia bem, então eu me vi pensando nas pequenas coisas que deram certo (“que bom, já passei os 60 km e dessa vez minhas pernas não pifaram igual daquela vez que pedalei até Toronto”) e minimizando os problemas que ainda faltavam resolver (“depois daquela curva ali acho que já é a saída pra fazer o retorno”, mas a curva terminava em outra subida, então era “ah, mas tem o quê até o topo ali, 1km no máximo, tá quase”).

No fim, completamos 83 quilômetros em 3 horas e 26 minutos, e com as esposas tirando foto na linha de chegada.

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O processo de tornar-se um ciclista inclui alguns ritos de passagem informais - por exemplo, passar vergonha caindo da bicicleta porque você esqueceu de desclipar as sapatilhas dos pedais antes de parar. Como você deve imaginar, esse eu já cumpri. Outro deles é a chamada century: um pedal de 100 quilômetros.

Há algumas semanas o Alexandre pedalou os 55 km de casa até Toronto, mas numa trilha nova pelo norte da cidade. Esses dias me deu a doida, tirei uma terça-feira de férias, peguei a rota que ele fez e fui conhecer. O trajeto é super legal, em parques e trilhas construídos ao redor das linhas de alta tensão que alimentam a cidade de Toronto, e essa trilha se conecta com a famosa East Don Trail, que corre numa área de conservação bem no meio da cidade: você pedala o tempo todo no meio do mato, mas termina bem no centro de Toronto.

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Acontece que, quando eu estava botando essa rota no computador da bicicleta, eu pensei que poderia colocar também a rota reversa da que fiz ano passado, só pro caso de eu chegar em Toronto bem o suficiente pra conseguir voltar.

Total do dia:

  • 110 quilômetros (730m de elevação)
  • 4 horas e 58 minutos de pedal, mais 1h de pausa pra almoço
  • Velocidade média: 22 km/h
  • 2.900 calorias

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Além do triatlo do papai noel, acabei enfiando também um triatlo sprint no circuito desse ano. Ele tem distâncias um pouco maiores (750m de natação, 20km de bike e 5km de corrida), então vou precisar botar o treino da piscina e da esteira em dia. E tem também meu primeiro fondo (o nome ciclístico pra corridas de bicicleta), vão ser 100 km na belíssima região de Prince Edward County. Essa promete.


Esses dias descobri que, se eu pegar o trem e descer em Guildwood, dá pra sair da estação direto pra uma trilha que desemboca direto no Rouge Park, meu trecho preferido de pedal no Lago Ontário, e de lá até em casa inteiram uns 35 km.

É realmente impossível ser infeliz em cima da bicicleta.

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